Sexta-feira, 3 de Outubro de 2008

A oposição que o PSD gostaria de ser, mas não é...

A máscara de Sócrates

 

José Sócrates gostaria de ser recordado como o líder que deixou na esquerda a marca de seriedade e competência que parecia ser apanágio da direita. Fiel à sua matriz ideológica, socialista, prometeu um estado eficaz e sério, uma administração pública capaz e ao serviço dos cidadãos. Volvidos três anos e meio sobre a sua posse, os resultados são frustrantes, a imagem do primeiro-ministro esboroa-se.

Em campanha eleitoral, o secretário-geral do PS prometera o choque tecnológico, o combate sem tréguas ao desemprego, com a criação de 150 mil novos postos de trabalho, e o não aumento de impostos. Ao invés, subiu o IVA e obrigou mais de 150 mil portugueses a procurar emprego no exterior, num movimento migratório só comparável ao dos últimos anos da ditadura. O choque tecnológico resume-se a uma distribuição populista de computadores, num estilo plagiado de Valentim Loureiro.

 

Sócrates empurra-nos para o abismo. A reforma da administração pública foi um flop. Temos hoje um estado ainda maior, mais pesado e mais caro: aumentou a despesa corrente e o número de funcionários não diminuiu significativamente. A justiça continua paralisada, as forças de segurança inoperantes. O sistema público de educação transformou os professores em burocratas, desvalorizando-os e desresponsabilizando-os. Os gastos estatais em saúde aumentam e os beneficiários não são os utentes, mas sim os grupos privados de saúde, laboratórios e farmácias. O Simplex, programa que prometia desburocratizar a administração pública, é uma miragem. Prevalece e reforça-se a cultura centralista e burocrática, ao ponto de, ainda em 2008, ser o Ministério da Educação a regulamentar as podas das árvores nos recreios das escolas de Bragança ou Melgaço. Os portugueses estão mais pobres, o estado mais ineficaz, o país sem estratégia.

 

Durante algum tempo e à força de muita propaganda, subsistiu a imagem de eficácia de Sócrates. Com o seu ar sisudo, apropriou-se do arquétipo do político austero, competente, magro, na senda de Salazar ou Cavaco Silva. Renegava assim a sua origem afectiva, de esquerda, e o padrão do político permissivo, bonacheirão e anafado, desempenhado pelos incapazes Mário Soares ou Guterres. Só que a postura de competência e determinação jamais tiveram tradução na acção do seu governo. Ao cair da máscara, percebe-se que Sócrates é um novo Guterres, disfarçado de Cavaco. Um bom disfarce num óptimo actor. Mas só isso.

 

Paulo Morais

2008-10-01

http://jn.sapo.pt/Opiniao/default.aspx?opiniao=Paulo%20Morais


publicado por brunomiguelqueiros às 00:07
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